23/01/2012 - Curso Internacional

  

Estrangeiros visitam Feira da Produção Familiar de Bragança

    Os 17 estrangeiros que participam da Capacitação em Metodologias de Assistência Técnica e Extensão Rural (Training em Methodologies for Technical Assistance and Rural Extension), o primeiro curso internacional promovido pela Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Pará (Emater), conheceram, na manhã de sábado (21), a Feira da Agricultura Familiar de Bragança, município do nordeste do estado onde estão hospedados e onde as aulas do treinamento acontecem.

  A Capacitação se concentra na Unidade Didático-Agroecológica do Nordeste Paraense (UDB) da Emater, mas inclui visitas a propriedades atendidas pela Empresa, eventos de sentido cultural e práticas externas outras.

  A iniciativa toda tem a parceria do Ministério das Relações Exteriores (MRE), por meio da Agência Brasileira de Cooperação (ABC), e da Associação Brasileira das Entidades de Assistência Técnica e Extensão Rural (Asbraer).

  Realizada de 6h às 11h de todos os sábados e vésperas de feriados, a Feira reúne 22 famílias de 20 comunidades, que expõem e comercializam produtos agroecológicos (principalmente derivados de mandioca e hortaliças) em um espaço de 480 m² cedido pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) no centro de Bragança.

  A organização da Feira também tem o apoio do escritório local da Emater, da entidade Cáritas, ligada à Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), e da Escola Agrícola Municipal de Bragança.

  Além de ter sido parceira na concepção e execução das primeiras edições da Feira, a Emater atende regularmente os produtores e pesquisa semanalmente os preços no mercado geral do municipal, orientando uma tabela que determina valores pelo menos 20% mais baratos do que os identificados entre outros vendedores de Bragança.

  “A própria Feira é um método previsto na nossa programação didática e expresso no livro Metodologias de Ater e Pesquisa com Enfoque Participativo, cuja terceira edição [trilíngue] foi lançada pela Emater justamente no curso: a organização social, o ambiente de comercialização, a capacitação em gestão de negócios e empreendorismo – entre outros aspectos que nos subsidiam no aprendizado e discussão.  Nesta mesma circunstância, estamos aplicando também outros três métodos: a excursão, o intercâmbio e a entrevista semiestruturada, dos extensionistas em relação aos agricultores”, explica o engenheiro agrônomo Antônio Carlos Macedo, que faz parte da coordenação do curso.

  Os estrangeiros circularam livremente na Feira, aplicando as ferramentas de pesquisa e diagnóstico entre maços de cariru, pepinos, garrafas com tucupi e sacos de farinhas diversas.  Os que não falam português tiveram a ajuda dos tradutores profissionais Ari Maciel e Aldemir Oliveira Jr, colaboradores da ABC.

  “Todos chegaram à Feira com a trajetória planificada: o que fazer e como fazer. No caso da entrevista semiestruturada, há um formulário-padrão, como possibilidade de perguntas e respostas complementares, decididas e conduzidas por cada entrevistador”, diz a pedagoga da Emater Ivanete Alves, uma das professoras. 

  Na volta à UDB, os grupos de trabalho sistematizaram e apresentaram a experiência.

  “Achei muito importante ver de perto como o agricultor estabelece valor de exposição e venda para os seus produtos, e como o consumidor usufrui dessa oferta e sentimento”, resumiu o doutor em geografia indonésio Mahammad Gamal.

  Já a bióloga moçambicana Maria Isabel Omar, mestre em aqüicultura, criticou um modelo de feira do qual a comercialização dos produtores fosse dependente: “Não acho que o produtor tenha que se preocupar com os detalhes da comercialização. Acho que o produtor tem que se especializar e se profissionalizar cada vez mais na produção. Isso não significa ser contra feiras de contato direto entre produtores e consumidores, até porque creio que seja essa uma ocasião de convivência, conversa e troca de experiência; só defendo que, em vez de perder um dia na roça atrás de uma banca de vendas, o produtor consiga se organizar socialmente de modo a exigir preços justos de atravessadores, por exemplo”, contextualiza.

Feira

  Iniciada em 2009, a Feira ainda apresenta algumas dificuldades de divulgação e logística. “Porém, nosso objetivo primordial, de capacitação contínua social e política dos produtores, vem se cumprindo”, comemora o agricultor e estudante de História Denilson Silva, representante da Cáritas.

  Além da concorrência forte da feira municipal, cujas tradição e diversidade acabam irresistíveis para a maior parte dos consumidores, os agricultores da feira de produção familiar enfrentam problemas para o transporte da mercadoria.

  Adilson Lima, por exemplo, da comunidade do Km 12 da Rodovia Dom Eliseu, pedala quilômetros com as hortaliças orgânicas na carga - “devidamente embaladinhas, senão estragam”, ressalta.

  “Mesmo assim, vale a pena. Aqui tenho lucro de 40% em relação aos custos da produção. Também acredito que o esforço desta Feira nos vá render frutos a longo prazo”, aposta.

  Já Rosana Nascimento, da comunidade do Km 20 do Montenegro, é freqüente na Feira, vendendo farinha lavada e comum acompanhada dos filhos Ariane, de 17 anos, e Anderson, 15. A família, que cultiva mandioca e beneficia por conta própria em uma casa de forno comunitária, fatura cerca de R$ 150 reais em cada dia da Feira.

  “Nosso plano é deixar de negociar com os atravessadores, conseguir comercializar tudo diretamente, porque nosso lucro com esses comerciantes é mínimo, quase zero”, diz ela.

 Texto: Aline Miranda

Fotos: Newton Rosa