31/05/2023 12h33 - Atualizada em 05/02/2026 03h23 Por
Nascido e criado em Breves, no Marajó, Elder Brito sempre foi vendedor autônomo, mas hoje em dia sonha com “a própria horta”.
Paciente do Centro de Recuperação Paixão Por Almas, uma organização não-governamental (ong) de tratamento de dependentes químicos com sede naquele município, Brito se recupera também aprendendo a plantar e colher, a partir de um projeto de Horticultura Terapêutica comandado pelo escritório local da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Pará (Emater) e iniciado ano passado. Ele diz passar metade da sua rotina com as mãos na terra e, por conseguinte, com a mente no céu.
“ Aqui eu cultivo não só plantas: eu cultivo sonhos. Eu mexo na terra, desfruto contato com a natureza, e sei que, na alta, vou poder transformar em ofício, o que vai ajudar na minha sobrevivência e na reinserção social”, planeja. Por causa do vício, ele chegou a ser preso e condenado por furto. Já cumpriu toda a pena.
Para Patrick Barbosa, monitor do Centro,
“Deus está escrevendo uma nova história na vida do Elder", emociona-se.
Reabilitação
Essa nova história, de resgate e superação, acompanha a de pelo menos outros 24 jovens internados voluntariamente e de forma gratuita. No espaço comunitário, situado no bairro Aeroporto, eles mexem com variedades como abóbora, alface, couve e maracujá. A estrutura coberta de 12m por 12m é de material reciclado, à base de garrafas pet, e os produtos agroecológicos são parte importante das cinco refeições diárias oferecidas no tratamento.
“A experiência integra o grupo, lapida habilidades tais quais sensibilidade táctil e olfativa, treina para o empreendedorismo e combate o ócio”, resume a responsável pelas atividades, Maria Francisca Rodrigues, técnica em agropecuária e auxiliar administrativa da Emater.
A especialista explica que a capacitação contínua inclui teoria e prática, com reconhecimento de espécies, tratos culturais, avaliação de qualidades e identificação de mercados.
“É plantar comida, porém não somente: é fomentar subsistência, geração de trabalho e renda, valorização das tradições, abastecimento do município e ocupação sustentável das zonas periurbana e rural. O indivíduo ganha e a sociedade inteira ganha junto”, esmiuça.
Vida Nova
O monitor Patrick Barbosa estabelece a oportunidade no sentido de uma terapia “das principais”: “Teve interno que saiu e começou a trabalhar com horta. Eles pegam amor e se dedicam, criam responsabilidade. É muito bom o paralelo com a reabilitação deles: a gente planta e vê o processo, o crescimento, o surgir da vida, assim como eles recrescem e voltam à vida, no processo de cura ou controle da dependência química”, compara.
A ong sustenta-se com apoio de entidades como Emater e Prefeitura e de doações avulsas. O tratamento padrão é de oito meses.
“ As pessoas saem com trabalho, com dignidade retornada, restituem família. Temos fábrica de vassouras com garrafas pets e circuitos de vários cursos, com vários parceiros”, complementa.
Texto: Aline Miranda
Fotos: Divulgação (o entrevistado Elder Brito é o de camisa preta)